Quando um cachorro senta e recebe um petisco, alguma coisa importante está acontecendo no processo de aprendizagem.
Quando ele pula nas pessoas e percebe que isso faz com que elas lhe deem atenção, também está aprendendo.
E quando determinado comportamento deixa de produzir o resultado que costumava produzir, isso também pode modificar aquilo que o cão fará no futuro.
Esses exemplos ajudam a compreender um dos conceitos mais importantes da ciência da aprendizagem: o condicionamento operante no adestramento.
Enquanto no condicionamento clássico aprendemos principalmente através da associação entre estímulos, no condicionamento operante o comportamento é influenciado pelas suas consequências.
Em outras palavras:
o cachorro faz alguma coisa, uma consequência acontece e essa consequência pode aumentar ou diminuir a probabilidade de aquele comportamento acontecer novamente.
Neste artigo vamos entender a origem desse conceito, conhecer o trabalho de B. F. Skinner e descobrir o significado dos famosos quatro quadrantes do condicionamento operante.
O que é condicionamento operante no adestramento?
O condicionamento operante no adestramento é uma forma de aprendizagem na qual as consequências de um comportamento influenciam a probabilidade de ele acontecer novamente.
Vamos imaginar uma situação extremamente simples.
Você pede para o cachorro sentar.
Ele senta.
Imediatamente recebe um pedaço de alimento que gosta.
Se essa consequência tornar o comportamento de sentar mais frequente no futuro, ocorreu um processo de reforço.
O cão começa a perceber uma relação entre aquilo que faz e aquilo que acontece depois.
É diferente do condicionamento clássico.
No condicionamento clássico, uma associação pode acontecer entre estímulos.
Por exemplo:
som da campainha → alguém aparece.
No condicionamento operante temos uma relação envolvendo comportamento e consequência:
sentar → recebe algo desejado.
Essa diferença é fundamental para compreender a aprendizagem canina.
Qual é a origem do condicionamento operante?
Para entender sua história, precisamos voltar aos estudos sobre aprendizagem realizados no final do século XIX e durante o século XX.
Um dos pesquisadores importantes nesse caminho foi o psicólogo norte-americano Edward Thorndike.
Thorndike realizou experimentos estudando como animais aprendiam a resolver determinados problemas.
A partir dessas observações surgiu aquilo que ficou conhecido como Lei do Efeito.
De maneira simplificada, comportamentos seguidos por consequências satisfatórias tendem a ter maior probabilidade de ocorrer novamente, enquanto determinadas consequências podem reduzir a ocorrência de outros comportamentos.
Essas ideias ajudariam posteriormente no desenvolvimento dos estudos sobre comportamento.
B. F. Skinner e o condicionamento operante
O nome mais associado ao condicionamento operante é o psicólogo norte-americano Burrhus Frederic Skinner, conhecido como B. F. Skinner.
Skinner nasceu em 1904 e tornou-se uma das figuras mais importantes do behaviorismo.
Se Ivan Pavlov ficou conhecido principalmente pelos estudos relacionados ao condicionamento clássico, Skinner aprofundou a investigação sobre como as consequências influenciam comportamentos.
Em seus experimentos, animais podiam realizar determinados comportamentos e produzir consequências no ambiente.
Um rato, por exemplo, poderia pressionar uma alavanca e receber alimento.
Skinner estudou sistematicamente como diferentes consequências e esquemas de reforçamento alteravam a frequência dos comportamentos.
Esses princípios tiveram enorme influência na psicologia e continuam importantes para compreender processos de aprendizagem.
Condicionamento clássico e condicionamento operante são diferentes?
Sim, embora os dois possam acontecer simultaneamente.
Uma maneira simples de começar a compreender a diferença é pensar assim:
Condicionamento clássico: associação entre acontecimentos e estímulos.
Condicionamento operante: relação entre comportamento e suas consequências.
Imagine que você pegue a guia todos os dias antes de passear.
Depois de várias repetições, apenas enxergar a guia pode deixar o cachorro animado.
Temos uma associação.
Agora imagine que, antes de abrir a porta, você espere o cachorro sentar.
Ele senta e a porta se abre.
Se isso aumentar a probabilidade de ele sentar diante da porta futuramente, estamos observando aprendizagem pelas consequências.
Na vida real, diferentes processos de aprendizagem podem estar acontecendo ao mesmo tempo.
Os 4 quadrantes do condicionamento operante
Essa é uma das partes que mais causam confusão quando começamos a estudar comportamento.
Existem quatro termos muito conhecidos:
- reforço positivo;
- reforço negativo;
- punição positiva;
- punição negativa.
Antes de continuar, precisamos esclarecer uma coisa fundamental.
Na terminologia do condicionamento operante, positivo e negativo não significam bom e ruim.
De maneira simplificada:
Positivo (+) = algo é acrescentado.
Negativo (-) = algo é retirado.
Já reforço e punição estão relacionados ao efeito sobre o comportamento:
Reforço = aumenta a probabilidade de um comportamento.
Punição = reduz a probabilidade de um comportamento.
Com isso entendido, podemos conhecer os quatro quadrantes.
1. Reforço positivo no adestramento
No reforço positivo, algo é acrescentado depois de um comportamento e isso aumenta a probabilidade de o comportamento ocorrer novamente.
É provavelmente o exemplo mais conhecido no adestramento.
O cachorro senta.
Você entrega um petisco.
Se receber aquele alimento aumentar a frequência do comportamento de sentar, o alimento funcionou como reforçador.
Podemos utilizar diferentes reforçadores, dependendo do cachorro:
- alimentos;
- brinquedos;
- carinho;
- atenção;
- acesso ao ambiente;
- brincadeiras;
- oportunidade de explorar;
- acesso a algo que o cão deseja.
Um detalhe importante é que quem determina se algo funciona como reforçador é o efeito que aquilo produz sobre o comportamento.
Não basta o tutor acreditar que algo é uma recompensa.
Se não aumenta o comportamento, tecnicamente precisamos avaliar se aquilo realmente está funcionando como reforçador naquela situação.
2. Reforço negativo
O reforço negativo talvez seja um dos conceitos mais mal interpretados.
Reforço negativo não significa castigar o cachorro.
Lembre-se:
reforço significa aumentar um comportamento e negativo significa retirar alguma coisa.
Portanto, no reforço negativo, um estímulo é removido ou evitado em consequência de determinado comportamento, aumentando a probabilidade daquele comportamento.
É importante compreender esse conceito porque ele faz parte da teoria da aprendizagem, independentemente de ser ou não a estratégia escolhida para determinada situação de treinamento.
3. Punição positiva
Na punição positiva, algo é acrescentado após um comportamento com o efeito de reduzir a probabilidade de aquele comportamento ocorrer novamente.
Novamente, a palavra “positiva” não significa que a punição seja boa.
Significa apenas que um estímulo foi adicionado.
Esse conceito é importante para compreender a ciência do comportamento, mas também exige responsabilidade quando discutimos sua aplicação no treinamento de animais.
Consequências aversivas podem produzir efeitos que vão além da simples redução de um comportamento, incluindo associações emocionais indesejadas, medo, insegurança ou respostas defensivas dependendo da situação.
Por isso, conhecer a teoria não significa defender indiscriminadamente todas as possibilidades existentes dentro dela.
4. Punição negativa
Na punição negativa, algo que o indivíduo deseja é retirado ou deixa de ficar disponível após determinado comportamento, fazendo com que aquele comportamento diminua.
Imagine um cachorro que pula sobre uma pessoa para conseguir atenção.
Se toda vez que ele pula a interação é temporariamente interrompida e, ao manter as quatro patas no chão, a interação retorna, podemos trabalhar com consequências diferentes para esses comportamentos.
A retirada momentânea da atenção pode funcionar como uma punição negativa para o comportamento de pular, enquanto a atenção oferecida com as quatro patas no chão pode reforçar positivamente o comportamento desejado.
Esse exemplo também mostra algo importante:
o treinamento não acontece isolando conceitos em pequenas caixas. Diferentes processos podem fazer parte da mesma situação.
Um cachorro está aprendendo mesmo quando você não está treinando
Esse talvez seja um dos conhecimentos mais importantes para qualquer tutor.
O condicionamento operante não acontece apenas durante uma aula de adestramento.
Ele acontece durante a vida.
Seu cachorro pula em você.
Você faz carinho.
Ele late perto da porta.
Você abre.
Ele coloca a pata sobre você.
Você entrega atenção.
Ele puxa a guia.
Mesmo puxando, consegue chegar até o poste que queria cheirar.
Dependendo das consequências, comportamentos podem estar sendo fortalecidos sem que o tutor perceba.
Por isso costumamos dizer que não existe apenas o momento em que estamos adestrando o cachorro.
O ambiente e nossas próprias respostas estão constantemente oferecendo informações.
Por que o cachorro repete comportamentos que não gostamos?
Uma pergunta extremamente útil é:
o que esse comportamento está produzindo para o cachorro?
Imagine um cão que late enquanto a família está jantando.
Depois de algum tempo alguém entrega um pedaço de comida para fazê-lo parar.
O tutor pode acreditar que recompensou o silêncio.
Mas dependendo do momento da entrega, o cachorro pode aprender outra sequência:
latir → comida aparece.
Se isso acontecer repetidamente, não deveria nos surpreender se os latidos aumentarem.
Compreender as consequências muda completamente nossa maneira de analisar comportamentos.
O ambiente também educa seu cachorro
Nem toda consequência é entregue diretamente pelo tutor.
O próprio ambiente pode reforçar comportamentos.
Um cachorro puxa a guia e consegue chegar até um cheiro interessante.
Um cão late no portão e a pessoa que estava passando continua caminhando até desaparecer.
Um cachorro sobe na mesa e encontra alimento.
Em todos esses casos existem consequências produzidas pelo comportamento.
Por isso, trabalhar comportamento também envolve manejo ambiental.
Às vezes, antes de ensinar o que queremos, precisamos impedir que o cachorro continue praticando e obtendo resultados através do comportamento que desejamos modificar.
Como utilizamos esses conhecimentos na Metodologia Matilha Fiel?
Na Metodologia Matilha Fiel, compreender os mecanismos de aprendizagem é uma parte importante da educação canina.
Mas não observamos apenas um comportamento isolado.
Também consideramos:
- comportamento canino;
- etologia;
- instintos;
- estado emocional;
- ambiente;
- rotina;
- comunicação;
- previsibilidade;
- passeio;
- relação entre cachorro e família.
Utilizamos amplamente princípios do adestramento positivo e reforço positivo, dentro de uma metodologia própria construída a partir da experiência prática com cães e famílias.
O objetivo não é simplesmente fazer o cachorro executar comandos.
Queremos construir comportamentos que façam sentido dentro da rotina real daquela família.
Condicionamento operante significa controlar o cachorro?
Não.
Na verdade, compreender o condicionamento operante permite que o tutor perceba como suas próprias atitudes e o ambiente influenciam aquilo que o cachorro aprende.
Isso traz uma mudança importante.
Em vez de pensar:
“Meu cachorro é teimoso.”
Podemos começar perguntando:
“Quais consequências estão mantendo esse comportamento?”
Essa pergunta costuma ser muito mais produtiva.
Condicionamento operante na prática
Imagine que queremos ensinar um cachorro a esperar calmamente antes de sair para passear.
Em vez de abrir a porta enquanto ele pula, late e se joga para frente, podemos estabelecer uma regra simples.
Quando apresenta calma, a porta começa a abrir.
Quando mantém o comportamento adequado, consegue acesso ao passeio.
A própria oportunidade de sair pode funcionar como reforçador.
Perceba que não precisamos necessariamente depender de petiscos para tudo.
A vida cotidiana oferece dezenas de oportunidades de reforçamento.
Comida.
Passeio.
Cheiros.
Brincadeiras.
Atenção.
Liberdade.
Acesso aos ambientes.
Aprender a administrar esses recursos pode transformar a educação do cachorro.
Conheça o Livro Metodologia Matilha Fiel
Condicionamento operante é apenas uma das peças necessárias para compreender como um cachorro aprende.
Quando juntamos esse conhecimento com comportamento canino, instintos, comunicação, passeio, previsibilidade, liderança e construção de rotina, começamos a enxergar o cachorro de uma maneira muito mais completa.
Essa é justamente a proposta do Livro Metodologia Matilha Fiel.
O livro reúne nossa experiência com educação canina e apresenta ao tutor uma maneira prática de compreender e educar seu cachorro dentro da rotina familiar.
Mais do que decorar técnicas, queremos que você entenda por que determinados comportamentos acontecem e como suas próprias decisões podem influenciar aquilo que o cachorro aprende.
Metodologia Matilha Fiel – O Livro
Quanto melhor você compreende como seu cachorro aprende, melhor consegue ensiná-lo.
Conheça nossa metodologia e aprenda como comportamento, aprendizagem, instintos, liderança, passeio e comunicação fazem parte da educação de um cão.
Perguntas frequentes sobre condicionamento operante
O que é condicionamento operante no adestramento?
É uma forma de aprendizagem na qual as consequências de um comportamento influenciam a probabilidade de aquele comportamento ocorrer novamente.
Quem criou o condicionamento operante?
B. F. Skinner é o pesquisador mais associado ao desenvolvimento e estudo sistemático do condicionamento operante, embora trabalhos anteriores, como os de Edward Thorndike, tenham sido fundamentais para o desenvolvimento dessas ideias.
Qual a diferença entre condicionamento clássico e operante?
De maneira simplificada, no condicionamento clássico estudamos associações entre estímulos, enquanto no condicionamento operante analisamos como as consequências influenciam comportamentos.
Reforço negativo é punição?
Não. Essa é uma confusão muito comum. No condicionamento operante, reforço significa que um comportamento aumenta. O termo negativo indica a retirada de um estímulo.
Reforço positivo é apenas dar petisco?
Não. Alimentos podem funcionar como reforçadores, mas brinquedos, atenção, brincadeiras, acesso ao ambiente, oportunidade de cheirar e outros recursos também podem reforçar comportamentos.
Conclusão
O condicionamento operante no adestramento nos ajuda a compreender uma ideia extremamente poderosa:
as consequências importam.
Comportamentos que produzem determinados resultados podem aumentar ou diminuir de frequência.
Foi a partir de estudos iniciados por pesquisadores como Edward Thorndike e posteriormente aprofundados por B. F. Skinner que nossa compreensão científica desse processo avançou enormemente.
Hoje podemos utilizar esse conhecimento para observar nossos próprios cães.
Quando um comportamento acontece, podemos deixar de perguntar apenas:
“Como faço meu cachorro parar?”
E começar a perguntar:
“O que acontece depois desse comportamento e o que meu cachorro está aprendendo com isso?”
Essa mudança de perspectiva pode transformar completamente a educação canina.
Na Matilha Fiel acreditamos que quanto mais o tutor compreende comportamento, aprendizagem e comunicação, melhores são suas condições de construir uma relação equilibrada com seu cachorro.
Se você deseja aprofundar esses conhecimentos e conhecer nossa forma de trabalhar educação canina, conheça o Livro Metodologia Matilha Fiel.
Para aprofundar seus estudos sobre B. F. Skinner e sua contribuição para a psicologia, você também pode consultar materiais da B. F. Skinner Foundation.
